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A Subversão dos Fanzines Punks



A cultura punk surgiu para revolucionar a musica, o comportamento e a expressão dos jovens. Não vou discutir aqui se o punk é americano ou inglês. Alguns até dizem que o punk surgiu em solo brasileiro, mas falar sobre a origem do movimento punk não é o meu objetivo neste texto. Talvez em uma outra ocasião. O que desejo mesmo é escrever sobre a origem e trajetória dos fanzines punks até onde pude acompanhar e pesquisar. Um Para tanto é preciso voltar aos anos 1930, nos Estados Unidos, quando jovens autores de ficção cientifica criavam de modo artesanal suas publicações que circulavam via correio. Este era o único meio de publicar seus trabalhos. O termo fanzine só foi criado mais tarde, em 1941, por Russ Chauvenet, em português o sentido seria algo como: revistas de fãs, que são publicações amadoras, produzidas por fãs e destinadas aos fãs de algum tipo de expressão artística, No Brasil o pioneirismo é de Edson Rontani, que em 1965, resolveu fundar o Intercâmbio Ciência-Ficção ‘Alex Raymond’ (em homenagem ao desenhista de Flash Gordon) e editar um boletim para abordar quadrinhos e reunir os amantes dessa arte. O boletim saiu em 12 de outubro e foi batizado com o nome Ficção.

Agora, vamos ao fanzine punk.

O primeiro fanzine punk foi o Sniffin Glue, publicado por um bancário chamado Marky Perry, em julho de 1976. Reza a lenda que tomou tal decisão após assistir a um show dos Ramones . Este fanzine passou a ser a principal fonte de informações sobre o que rolava na cena punk. No último número de Sniffin Glue, em 1977, Marky Perry provoca seus leitores a publicarem seus próprios fanzines.

O chamado de Marky Perry chegou ao Brasil e em 1981 surgiram os fanzines Factor Zero, editado por David Strongos, da banda Anarcólatras de São Paulo, e Exterminação de São Bernardo do Campo, editado pela banda Ustler, ambos refletiam o espirito punk e hardcore. Os fanzines eram feitos de punk para punk .

A estética dos fanzines punks era caótica se comparada a uma revista vendida na banca e até mesmo se comparada a outros fanzines que não fossem punks. Todos tinham o seu editorial normalmente escrito pelo editor do fanzine. Nele era descrito o conteúdo do zine que era dividido em seções de entrevista com bandas, uma outra seção com textos anarquistas e resenhas escritas pelos próprios editores do fanzine ou convidados. Muitos desses fanzines não passaram de uma edição ou se fazia um intervalo de tempo muito grande entre uma publicação e outra. Não era comum nesses zines que as páginas fossem numeradas. Cópias depois eram impressas por copiadoras e distribuídas pelo correio, eram produtos sem rentabilidade para seus editores, que tinham uma grande ânsia em expressar suas ideias, opiniões e pensamentos.



No interior de São Paulo não foi diferente. Vários zines punks surgiram. Seguindo sempre a proposta do “Faça você mesmo.” Em Ribeirão Preto, em meados de 1995, e contando com uma média de 10 ativistas, surgiu o Coletivo Anarquista Rosa Branca com atividades que iam desde exposições contraculturais, colagens de cartazes, panfletagens nas ruas e praças de ribeirão Preto a edição de um fanzine, o Subversão, com temática libertária, anti-homofóbica, antifascista, antimilitarista. Em entrevista ao blog O Traidor do Movimento, Kelsen Renato Bianco, remanescente do Coletivo Anarquista Rosa Branca diz que este era o único fanzine punk que, na época, circulava na cidade. Outros zines punks rolaram em Ribeirão, no fim do século XX e início do século XXI. Gley, Vocalista da banda Intrusos, lançou vários fanzines neste período, mas não costumava dar nomes às suas publicações não diagramadas e muitas delas escritas à mão. O que importava eram as ideias e não a estética. Existência Frustrada de 2002 era outro zine que circulava em Ribeirão Preto. Editado por Eros Romano e Carol. O último número que tive notícia foi lançado em 2014. Tom Coalla, atual guitarrista da icônica banda Distúrbio Mental, editava em 2005 o fanzine Sans culotes e mais tarde Planetamor , uma publicação que era bimestral e falava sobre punk e anarquismo.


É difícil saber ao certo quantos fanzines circulavam e ainda circulam na Capital e no interior de São Paulo porque, entre as características dos fanzines punks, está o fato de serem aperiódicos, muitos tiveram apenas um número e poucas cópias distribuídas de mão em mão ou pelo correio. Na cidade de Mococa – SP, Joey Pinto, responsável pela produtora cultural e selo independente Síndrome do Caos desde 1997, me relatou que os zines punks que circulavam por lá no fim dos 1990 e inicio dos anos 2000 eram Doa a Kem Doer, que tinha conteúdo diverso com entrevistas, receitas, HQs, montagens, resenhas, vegetarianismo e afins, Fanzine Epidemia, exclusivo de resenhas e entrevistas. Os dois zines eram editados por ele. Bombardeio eram um fanzine de temática anarquista editado por Nardo burduada e Buda e o Boca no Tromboni que era diverso com textos feministas, colagens e entrevistas. Todos esses zines tinham em comum serem aperiódicos, não se importarem com a diagramação e com números de cópias não exatas. Em Serrana – SP, de 1996 a mais ou menos 2003, Ricardo Brasileiro editou o Fanzine Sindicato do Rock que não era uma publicação propriamente punk, pois era aberto às contribuições de colaboradores de outras tendências, ainda assim bebeu muito nessa fonte, principalmente em seus primórdios.

Os fanzines punks foram muito importantes na divulgação do som, das ideias e da filosofia do ” Faça Você Mesmo” presentes no movimento. Hoje, se você procurar, ainda é possível encontrar zines punks e com todas as características elencada acima. É claro que muitos punks com o acesso às novas tecnologias preferem usar as redes sociais para fazer esse trabalho de divulgação de ideais e bandas punks, mas com certeza jamais esquecerão o cheiro de cola em suas mãos.

Para saber mais sobre os fanzines punks sugiro a leitura do livro Os Fanzines Contam uma História Sobre Punks de Antônio Carlos de Oliveira.


João Francisco Aguiar – Fanzineiro de longa data e baterista do Duo Justu.

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