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MEMÓRIAS ROCKABILLY


Aos seis anos de idade, em meados dos anos 1980, minha mãe me presenteou com uma pequena sonata vermelha, que funcionava ligada à tomada ou com pilhas, e colocou para rolar um disco do Elvis Presley. Uma coletânea lançada no Brasil em razão de sua morte. O álbum duplo reunia todos os seus grandes sucessos. Eu não imaginava, mas a minha primeira audição de “Blues Suedes Shoes” marcaria minha vida com desdobramentos que levariam, anos mais tarde, a querer ter uma banda de Rock and Roll.

Cresci idolatrando a figura de Elvis, tentei de todas as maneiras ter um belo topete, mas o meu cabelo não colaborava comigo. Acordava pela manhã, penteava todo os cabelo para trás e depois com os dedos puxava-o para a frente, colocava minha jaqueta jeans, levantava sua gola e ia para a escola me sentindo o rei do rock. Conforme meu cabelo secava, ele armava e o máximo que conseguia era ser a piada da sala. Chamava a atenção das meninas, mas da maneira errada. Eu estava na oitava série. No colegial é que fui me inteirar ao certo sobre que era Rockabilly e saber que Elvis tinha muito a ver com essa história. Com a grana do meu primeiro emprego (Office Boy) passei a frequentar os sebos de Ribeirão Preto e conhecer outros representantes do estilo como Jerry Lee Lewis, Carl Perkins (que costumava dizer que o estilo era um “blues com uma batida country), Buddy Holly e Bill Halley (que antecedeu à Elvis no estilo).

Conversando com amigos mais velhos e buscando informações em revistas e fanzines que fiquei sabendo que o estilo já se delineava antes mesmo de Elvis ser coroado (em meados de 1950) e que a origem do rockabilly estava ligada a uma pequena gravadora na cidade de Memphis: a Yellow Sun, de Sam Phillips, que mantinha uma linha de produção composta apenas por artistas negros que tocavam blues, como as bandas Chess in Chicago e RPM on The Coast. E foi nessa gravadora que Elvis teve a oportunidade de gravar, em homenagem a sua mãe, a música That’s All Right, por U$3,89.


Mas o Rockabilly não era só música. Também passou a ser estilo de vida de muitos jovens que desejavam romper com os padrões e desafiar as normas familiares. Em meados dos anos 1990, já me interessava pelas letras de protesto do punk nacional e me decepcionei um pouco com as traduções de letras de Rockabilly que não tinham muito significado para mim, o que me atraia profundamente era o ritmo, o modo de cantar cheio de espasmos, repetições de sílabas e vibrações vocais, como em Baby Let’s Play House, de Elvis Presley.

Os primeiros passos do Rockabilly no Brasil foram nos anos 1980 com Eddy Teddy e a banda Coke Luxe, mas os primeiros sons que ouvi foram os da coletânea Devil Party que reuniu três bandas paulistas de Psychobilly (Kães Vadius, Kryptonitas e K-Billy's) e uma carioca (A Grande Trepada), cada uma com três músicas. O disco foi lançado em 1989, mas o adquiri em 1995, em um dos sebos da baixada de Ribeirão Preto. Assim me foi apresentado o Psychobilly, gostei muito do gênero porque misturava os sons que mais faziam a minha cabeça: rock and roll, punk rock e rockabilly.


A partir dessa coletânea passei a querer saber mais sobre as bandas que a compunham, peguei discos emprestados, pedi para que me gravassem fitas cassetes, na maioria os discos e fitas que adquiri eram com bandas de São Paulo e do ABC Paulista. Um amigo mais velho, que não vejo há anos, me contou que a capital era o berço do estilo e visto com muito respeito pelas bandas de outros estados.

Atualmente, ainda ouço e gosto muito de Rockabilly e Psychobilly. Hoje, as informações chegam muito mais rápido que antes. A internet está aí para ser usada para o bem ou para o mal. Há cenas importantíssimas organizando festivais, com bandas ativas e autênticas surgindo no Brasil todo. Curitiba, por exemplo, é apontada como a cidade mais importante do Brasil e uma das mais quentes do mundo para o a música psychobilly. Em Sampa, uma das bandas que mais se destaca hoje é a Asteróide Trio, formada em 2006 na cidade de Arujá, Grande São Paulo. Composto por Leandro Franco (Vocal e Bateria), Formiga (Guitarra) e Weasel (Baixo e Vocal). Com influências de Rockabilly, Psychobilly, Punkabilly, Surf Music, Quadrinhos Alternativos e Filmes B. O power trio, recentemente, gravou versões rockabilly de clássicos do Ratos de Porão com João Gordo no vocal. Vou deixar abaixo, links com sons e docs para quem quiser saber ou se aprofundar mais neste fantástico gênero musical, no Brasil e no mundo. Até a próxima!

João Francisco Aguiar – Fanzineiro de longa data e baterista do Duo Justu.

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